"Pensando pelo viés da normalidade e da patologia, um aluno "normal" é aquele que está contido nos parâmetros "satisfatórios" avaliado por um sistema único. Senda assim, poucos são os que conseguem seguir tais exigências deixando aos demais uma classificação patológica e quase sempre medicalizada. Com isso é fácil identificar que, os que estão além e os que estão aquém do sistema já estão excluídos pelo "apagamento" das diferenças. Por outro lado há o discurso da inclusão daqueles que foram rotulados "portadores de necessidades especiais", os quais, exacerbadamente tomam para sí os holofotes políticos. Então, posto que temos aqui um jogo perverso de apagamento e exacerbação, como você, sendo educador, trabalha tais diferenças em suas práticas?"
A questão que você coloca é muito complexa e gostaria muito de agradecer pela mesma. Fiquei aqui matutando. Ensaiei varias respostas. Não encontrei as duas primeiras. Resolvi então escrever esta terceira. Mas que tenho certeza é apenas um começo de reflexão sobre o tema.
Estas é uma questão que não é possível, nem aceitável que tenhamos uma resposta única e definitiva. E portanto o que encaminho aqui e um olhar provisório sobre esta provocação.
Primeiramente gostaria de dizer que tenho alguns anos de experiência no ensino público. Mas especificamente desde 1994, quando comecei a lecionar na rede estadual e posteriormente acumular com a rede municipal. Tenho o privilégio de ter me formado profissional da educação na rede pública, ainda que tenha percorrido a trajetória de aluno da escola pública que precisou pagar universidade particular para completar o ensino universitário. Contradições e evidências do nosso perverso sistema social que naturaliza a desigualdade e inviabiliza o acesso das populações pretas e pobres na universidade(hoje enfim conseguimos um significativo avanço, com a definição das cotas na Universidade Federais.) Pois ainda que não seja a solução é uma ação efetiva no enfrentamento dessas desigualdades e que acredito ter a ver com toda essa temática que a sua questão/provocação nos instiga a pensar.
Outra consideração que gostaria de fazer é sobre esse jogo de palavras que temos encontrado quando discutimos sobre inclusão-diversidade e afins.
Há uma enxurrada de terminologias que por vezes desvia o foco da discussão e complexifica o entendimento de coisas e direitos simples como é a questão da educação no seu principio fundamental.
Inúmeros são os autores que apontam a questão a ser enfrentada neste processo de inclusão de todos. Tema este que foi apontado como proposta de formação e de educação pela professora Corinta Geraldi, quando secretária de educação do município de Campinas.
Nesta perspectiva é preciso um aprofundamento intencional do conhecimento a respeito dos temas apontados por estas políticas educacionais.
Sou professor de matemática e durante toda a minha experiência, sempre ouvi dos alunos, principalmente quando compreendiam o que estava ensinando, por deveriam aprender aquilo que eu estava ensinando. Pergunta esta que me mobiliou na direção de encontrar respostas para esta indagação, não por que deveria responder aos alunos, mas por que era um pergunta que era extremamanete intrigante. E nessa busca é que acredito que vim me constituindo professor de matemática.
Afinal a que serve a minha resolução de problema. E como percebo os problemas que encontro ao longo da minha trajetória profissional?
Assim estas considerações que fiz a respeito das questões dos alunos, acredito que a sua mereça esta mesma consideração: Quem é normal nesta nossa sociedade? Que é detentor dos direitos a educação de qualidade? E Omo é possível te-las de forma efetiva e não apenas no campo dos discursos politicamente corretos.
Pois bem enquano sou professor de matemática a diversidade de sujeitos e de formas de aprendizagens vão se impondo a nossa prática. Durante muitos anos o Brasil e o seu sistema de educação optou por expelir aqueles que não se enquadravam nos padrões, rotulando e determinando os fracassados deste processo.
Não apontando solução para aqueles que fugissem dos padrões de normalidade que haviam. Neste sentido e quantitativamente foram afetados os negros e índios. Chegando a inclusive haver decretos que determinavam que estas populações não poderiam frequentar a escola em horário regular, reservando para estas populações o ensino noturno.
Mas em sendo o tempo o importante elemento da história, estamos hoje em 2012 e 12 vendo ser homologado o decreto sobre cotas e as diversas legislações referentes a inclusão.
No sentido da normalidade/anormalidade, tenho uma primeira experiência muito marcante que me fez muito cedo refletir sobre normalidade e anormalidade:
Caso André
Wilson Queiroz - 2008
Lembro-me bem quando iniciei minha carreira como professor de matemática da rede estadual, mas precisamente no ano de 1994, havia um aluno com hidrocefalia, muito bom aluno por sinal, gostava de matemática e sabia a tabuada de cor.
Ao encontrá-lo na classe uma quinta série e que diferentemente do André, era considerado todos normais, muitos deles não conseguiam ou ainda não haviam memorizado a tabuada, uma das aprendizagens que se espera que os alunos desenvolvam ao longo da vida escolar.
André possuía limitações na escrita o que dificultava a leitura dos seus textos, e assim precisei encontrar formas outras de avaliá-lo na disciplina.
Mas o que gostaria de ressaltar é que talvez seja esta a minha primeira experiência de trabalho consciente e comprometido com as diferenças é que ao encontrá-lo na classe me perguntei o que fazer com ele e quais os procedimentos e atitudes deveria ter?
Fui orientado pela coordenadora pedagógica, e não quero culpabilizá-la, mas sim demonstrar a minha limitação na interpretação do que ela havia me recomendado, pois a mesma disse-me que teria que trata-lo normalmente, então foi o que radicalmente fiz.
Mas, quem esta em classe sabe com é. Aluno de 5ª série pede para ir ao banheiro fazer xixi, e a regra era que não devíamos deixar ninguém sair da classe fora dos horários estabelecidos. Radicalmente e prontamente foi o que fiz.
Num certo dia o aluno referido me pediu para fazer xixi, e eu simplesmente disse não. Ele voltou para a carteira e sentou-se. Logo em seguida começamos a trabalhar a matéria na lousa, quando passado alguns minutos fui interrompido por alguns alunos da classe.
Qual foi minha surpresa ao virar-me e ver o André. Ele havia feito xixi na calça sentado na primeira cadeira. Foi então que veio o meu desespero. O que fazer agora? O aluno estava todo molhado e havia pedido pra sair e eu não deixei.
Pedi para os colegas chamar alguém da limpeza e fiquei matutando sobre o ocorrido.
Desta experiência aprendi que apesar de iguais, há necessidades específicas, algo que me marcou e que até hoje sinalizo como necessária e constituidora da minha ação pedagógica. Pois este aluno me possibilitou uma reflexão que jamais teria feito se não fossem suas limitações e possibilidades percebidas e possibilitadas por mim enquanto educador.
Naquele ano a partir desta experiência, passou a ser a luta travada no sentido de aprová-lo, por uma série de questões que foram sendo produzidas pelo aluno e pelo seu crescimento.
Mas naquele ano André reprovou.
Às vezes ainda o encontro e sei que depois desta experiência nunca mais tratei todos iguais o tempo todo.
Então deste estopim sei que tratar todos iguais o tempo todo produz uma anulação e uma impossibilidade de trabalho com o coletivo e com as especificidades, porém este episodio produziu mudanças outras em minha relação com os alunos, pra minha sorte este episódio foi bem no inicio da minha carreira.
Hidrocefalia é, de forma genérica, a acumulação de líquido cefalorraquidiano (LCR) no interior da cavidade craniana (nos ventrículos ou no espaço subaracnóideo), que por sua vez, faz aumentar a pressão intracraniana sobre o cérebro, podendo vir a causar lesões no tecido cerebral e aumento e inchaço do crânio.
Este caso me impôs a pensar nas especificidades e na generalidade com a qual estou comprometido na minha prática educativa.
Neste mesmo movimento e mais recentemente, trabalhando no Oziel encontrei o aluno Maicon e que assim escrevi sobre ele:
Sentindo na Pele
Wilson Queiroz - 27/04/2012
M... é um aluno que está no 9º ano E. Foi atropelado por um automóvel quando corria atrás de pipa, anos atrás, na rodovia Santos Dumont. Perdeu massa encefálica e por isso fala com dificuldade, mas com um pouco de esforço é possível entende-lo perfeitamente. Estiiiiiiiiiiiica alguuuuuuuuumas leeeeeeetras ao falar. Anda quase caindo e é forte como um touro. Forte que às vezes quando aperta a nossa mão parece que vai machucar.
Hoje eu planejei para a classe a resolução de Sistemas de Equações. Estávamos todos envolvidos com a resolução dos mesmos. Para M, recebi da professora de Educação Especial um livro de 1º ano, onde constam inúmeras atividades de alfabetização. Como ele tem certa autonomia de leitura entreguei o livro para ele e disse que queria que ele escolhesse a lição que gostaria de fazer. Deixei-o alguns bons minutos fazendo as atividades que escolheu.
8 – 3 = ________ 8 – 5 = 3_________ 9 – 4 = _________ 9 – 5 _________
Toda a atividade devidamente ilustrada com desenhos de mãos que auxiliava no processo de encontrar os resultados das operações propostas.
Antes que eu esqueça, ele também tem muita dificuldade motora. Escreve alguns números e letras ao contrário. Porém compreende adição e subtração dentro de suas limitações e diagnóstico.
Tento tratá-lo o mais próximo do que trato todos os alunos “normais” e quando os “normais” estão tranquilos e envolvidos nas atividades, me disponho um tempo maior e exclusivo de dedicação ao aluno M.
Após deixá-lo um tempo fazendo as primeiras atividades, chamei-o para corrigir o verificar o que havia feito. Eu estava sentado no fundo da classe e então vem o M..., andando cai-mas-não-cai-cai-mas-não-cai-cai-mas-não-cai e quem está de longe e não o conhece sente esta mesma aflição. O fato é que ele não cai.
Corrigi as atividades. Havia uma conta que ele tinha errado, apaguei e pedi para que ele fizesse certo e com letra bonita, se fizesse com letra feia iria apagar para ele fazer de novo. (Falei sério, não bravo)
- Não quero letra feia. Avisei pra ele.
Ele olhou e riu. Disse que eu estava enchendo o “saaaaaaaaco”. E depois abriu um sorriso.
Foi então que resolvi escolher uma segunda atividade para ele, pensando na sua caligrafia.
Propus então que ele fizesse a atividade seguinte do livro:
0 – zero 1 – um 2 -_______ 3______ 4______
5_______ 6 _____ 7______ 8_____ 9______
Na classe tem o alfabeto exposto acima da lousa, porém eu não alcançava para mostrá-lo todas as letras, sem que fizesse confusão com as palavras que deveria escrever.
Logo em seguida olhei para o fundo da classe e percebi que havia os números escritos, num cartaz fixo na parede, do número 1 ao 20. Apontei para o painel e pedi para que ele se virasse e tentasse escrever os números que estavam escrito.
Ele foi logo reclamando e dizendo:
- Eeeeeeeeeeu nããããão seeeeeeei faaaaaaaazer.
Falei em tom de bravo e de brincadeira com ele:
- Sabbbbbbbbbe Siiiiiiiiiiiiiim. Vaaaaaaaaaai Faaaaaaaazer e pronto.
Não era preguiça, nem rebeldia. Ele não conseguia mesmo fazer pela distância da escrita e pelas dificuldades visuais de encontrar as palavras. Então acatei a sua reclamação.
Aproximei-me dele outra vez e comecei a desenhar as letras do alfabeto em seu braço. Ele ia identificando as letras a partir dos desenhos que fazia com os meu dedo indicador em seu braço.
Fiz o desenho da letra A e ele falou o nome da letra e assim experimentei até o Z, para saber se ele conseguiria identificar e pronunciar os nomes das letras.
E assim encontrei uma maneira de escrever com ele os números de Zero a Nove por extenso.
Depois que terminamos ainda deu tempo de encher mais um pouco a sua paciência. Repeti diversas vezes as palavras escritas. E quando percebia que ele não conseguia pronunciar corretamente a sílaba que compunha a palavra colocava a mão em suas costas e repetia com ele varias vezes.
O três foi uma das palavras que fiz isso. Ficamos brincando de pronunciar a palavra três diversas vezes.
Acredito que devo responder a duas perguntas que podem e devem surgir:
Quanto tempo durou tudo isso?
R- Não mais que dez minutos
E os demais alunos da classe?
R- Estes são realmente surpreendentes. Tem dias que concorrem diretamente com o M..., mas hoje eles simplesmente colaboraram e perceberam um pouquinho mais do quanto importante pode ser um aluno com necessidade especial em classe. Principalmente quando se tem o devido suporte e as condições necessárias para que possamos dar atenção a todos e a cada um em suas especificidades.
E agora tentando ser objetivo na minha resposta/consideração é sobre este prisma que também trabalho e a sua pergunta se coloca como resposta: Afinal sabendo que Então, posto que temos aqui um jogo perverso de apagamento e exacerbação, como você, sendo educador, trabalha tais diferenças em suas práticas?"
Reconhecendo a perversidade do sistemas e tentando encontrar do exacerbamento das ações algumas possíveis potencialidades, como por exemplo dar maior visibilidade as discussões na escola e com os alunos. Perceber o quanto das diferenças tem sem transformado e utilizado como desigualdade e naturalizadas na minha prática. E fugindo a todo custo da invisibilização das discussões que fazem parte deste universo deformação e discussão.
Tenho aprendido que as discussões étnico-raciais abriram meus poros para todos os temas de exclusão-inclusão e que a partir desta experiência, tenho buscado pratica uma educação em 3D: Desnaturalizada, Descolonizada e Desescravizada. Assim ao Desnaturalizar a exclusão, a normalidade, o racismo, as desigualdades é possível buscar maneiras de equacionar estes problemas e práticas.
Neste sentido a ruptura do silêncio da escola e da família é uma mola propulsora para buscar o que o Sociólogo Boaventura de Souza Santos nos diz: é preciso lutar pela igualdade quando as diferenças nos discrimina e lutar pelas diferenças quando a igualdade nos anula.
Wilson Queiroz
Mestre em Educação
Especialista em Pedagogia Étnico-Racial
GEPEC – Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada – UNICAMP.