sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Cultura e diversidade





Do ponto de vista biológico a diversidade surge no processo de evolução dos seres vivos em consequência da necessidade de adaptação do sujeito ao meio. Sabemos hoje que a diversidade é condição imprescindível à manutenção da vida no planeta. No caso da espécie humana, essa diversidade se manifesta tanto biológica quanto culturalmente. As culturas se constroem e se diversificam na interação com o meio em que vivem e no contato com outras culturas. Cada ser humano traz em si um potencial único que se manifesta no processo de individuação. Porém, esse processo é consequência da interação do indivíduo com o meio no qual está inserido e com sua identificação com os valores do grupo ao qual pertence.
Hoje, as fronteiras entre as diversas culturas já não têm limites tão precisos. Mas o desenrolar histórico desse encontro de culturas gerou um momento em que existe uma forte tendência a uma homogeneização cultural dentro dos padrões impostos pelas demandas de consumo. Essas demandas não refletem necessidades reais, mas antes as cria com o fim de manter a economia em movimento. Se por um lado existe um forte apelo ao individualismo, por outro se restringe cada vez mais os espaços de construção/exercício da individualidade. A expansão dos meios de comunicação facilitou o acesso à informação e a possibilidade de expressão. Mas só têm um amplo espaço de expressão (na grande mídia produtora/detentora/divulgadora das verdades) as informações que se conformam a um modelo de discurso. Muitas vezes é essa informação distorcida que tomamos por base em nossas discussões.
Na sala de aula
DIFERENÇA (gr. ôioupopá; lat. Differentia-, in. Difference, fr. Différence, ai. Differenz; it. Differenzà).
Determinação da alteridade. A alteridade não implica, em si, nenhuma determinação; p. ex., "a é outra coisa que não b". A D. implica uma determinação: a é diferente de b na cor ou na forma, etc. Isso significa: as coisas só podem diferir se têm em comum a coisa em que diferem: p. ex., a cor, a configuração, a forma, etc (Dicionário de Filosofia Abagnano)


Igualdade, desigualdade, diferenças, semelhanças... palavras que podem ter significados diversos quando refletimos e as aplicamos às nossas experiências de vida, palavras que podem alargar nossa concepção de mundo ou restringi-la quando a única possibilidade que temos é submetermo-nos à compreensão que delas tem um outro.
Ainda que sejamos dotados dos mesmos sentidos para apreender a realidade, o "produto final" de nossas percepções tem um forte componente subjetivo. Se a princípio temos a possibilidade de experimentar entre as diversas formas de vivenciar o real, durante o processo educativo aprendemos a nos adequar a uma determinada forma de ver o mundo. Aparentemente, essa é uma coisa que Jacques Prévert não aprendeu:
Dia de festa (Jacques Prévert)

Onde vai você meu menino com essas flores
Debaixo dessa chuva

Está chovendo está molhando
Hoje é aniversário da rã
E a rã
É minha amiga

Ora menino
Bicho não faz aniversário
Ainda mais um batráquio
Decididamente se não o colocamos nos eixos
Esse menino ainda vira um bom malandro
Por causa dele ainda vamos comer
O pão que o diabo amassou
Vive tendo essas idéias
E ninguém ralha com ele
Esse menino só faz o que lhe dá na telha
E nós queremos que faça o que dá na nossa

Oh meu pai!
Oh minha mãe!
Oh meu tio-avô Sebastião!

Não é com minha cabeça
Que ouço o coração bater
Hoje é sim o aniversário
Por que não podem entender?
Oh! não me puxem pelo ombro
Não me peguem pelo braço
Quantas vezes a rã me fez rir
E toda a noite ela canta para mim
Mas aí eles fecham a porta
Vêm falar-me suavemente
Eu grito que é dia de festa
Mas ninguém ali me entende.

Pergunta: José Pacheco

Enviamos a seguitne pergunta ao Prof. José Pacheco.

Como você vê a relação entre currículo, forma escolar e a capacidade da escola em lidar com as diferenças? Quais modelos e princípios que norteiam o trabalho para a diversidade na escola?

Como resposta, ele enviou um livro, do qual retiramos os trechos mais significativos para a temática da exacerbação/apagamento das diferenças.

"Sempre que um professor se assume individualmente responsável pelos atos do ser coletivo, reelabora a sua cultura pessoal e profissional... inclui-se. Como não se transmite aquilo que se diz, mas aquilo que se é, os professores inclusos numa equipe com projeto promovem inclusão."

"Onde houver turmas de alunos enfileirados em salas-celas, não haverá inclusão."

"Onde houver séries e aulas assentes na crença de ser possível ensinar a todos como se de um só se tratasse, não haverá inclusão."

"O ethos organizacional de uma escola depende da sua inserção social, de relações de proximidade com outros atores sociais"

"Na solidão do professor em sala de aula não há inclusão. Nem do aluno, metade do dia enfileirado, vigiado, impedido de dialogar com o colega do lado, e a outra metade, frente a um televisor, a uma tela de computador ou de telemóvel... sozinho."

"Um projeto de inclusão é um ato coletivo e só tem sentido no quadro de um projeto local de desenvolvimento consubstanciado numa lógica comunitária, algo que pressupõe uma profunda transformação cultural."

"O trabalho cooperativo de professores (há sempre mais que dois em cada espaço, em cada momento), a auto-formação e a formação em círculo de estudo são suportes que permitem a todos e a cada um dos orientadores educativos dar resposta a todos e a cada caso."

"Creio ser necessário integrar novas valências na equipa de projeto (educadores sociais, animadores sócio-educativos, sociólogos, antropólogos, especialistas em diversas áreas das chamadas necessidades educativas especiais), que sejam capazes de trabalhar em espaços comuns, cooperativamente."

"Todas as escolas deveriam ser espaços produtores de culturas singulares, mas também espaços de múltiplas interações, comunicação, cooperação, partilha... sabemos que não é bem assim. As escolas são, quase sempre, espaços de solidão. O trabalho dos professores é um trabalho feito de solidão e a solidão dos professores é da mesma natureza da solidão dos alunos – professores e alunos estão sozinhos na escola."

Referência:
PACHECO, José. Inclusão não rima com solidão.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Entendeu a diferença???

Pinocchio, por Olivero Toscano


Um aluno chamado Matheus

http://www.youtube.com/watch?v=tAj_QPJrNUA

Convivendo com as Diferenças - Deficiências Intelectuais

http://www.youtube.com/watch?v=lY2OLBVdt10

A Política Nacional para a Educação Inclusiva: Avanços e Desafios

http://www.youtube.com/watch?v=AUL62tZIFYY

Pergunta: Professor do EF


"Pensando pelo viés da normalidade e da patologia, um aluno "normal" é aquele que está contido nos parâmetros "satisfatórios" avaliado por um sistema único. Senda assim, poucos são os que conseguem seguir tais exigências deixando aos demais uma classificação patológica e quase sempre medicalizada. Com isso é fácil identificar que, os que estão além e os que estão aquém do sistema já estão excluídos pelo "apagamento" das diferenças. Por outro lado há o discurso da inclusão daqueles que foram rotulados "portadores de necessidades especiais", os quais, exacerbadamente tomam para sí os holofotes políticos. Então, posto que temos aqui um jogo perverso de apagamento e exacerbação, como você, sendo educador, trabalha tais diferenças em suas práticas?"


A questão que você coloca é muito complexa e gostaria muito de agradecer pela mesma. Fiquei aqui matutando. Ensaiei varias respostas. Não encontrei as duas primeiras. Resolvi então escrever esta terceira. Mas que tenho certeza é apenas um começo de reflexão sobre o tema.


Estas é uma questão que não é possível, nem aceitável que tenhamos uma resposta única e definitiva. E portanto o que encaminho aqui e um olhar provisório sobre esta provocação.
Primeiramente gostaria de dizer que tenho alguns anos de experiência no ensino público. Mas especificamente desde 1994, quando comecei a lecionar na rede estadual e posteriormente acumular com a rede municipal. Tenho o privilégio de ter me formado profissional da educação na rede pública, ainda que tenha percorrido a trajetória de aluno da escola pública que precisou pagar universidade particular para completar o ensino universitário. Contradições e evidências do nosso perverso sistema social que naturaliza a desigualdade e inviabiliza o acesso das populações pretas e pobres na universidade(hoje enfim conseguimos um significativo avanço, com a definição das cotas na Universidade Federais.) Pois ainda que não seja a solução é uma ação efetiva no enfrentamento dessas desigualdades e que acredito ter a ver com toda essa temática que a sua questão/provocação nos instiga a pensar.
Outra consideração que gostaria de fazer é sobre esse jogo de palavras que temos encontrado quando discutimos sobre inclusão-diversidade e afins.
Há uma enxurrada de terminologias que por vezes desvia o foco da discussão e complexifica o entendimento de coisas e direitos simples como é a questão da educação no seu principio fundamental.
Inúmeros são os autores que apontam a questão a ser enfrentada neste processo de inclusão de todos. Tema este que foi apontado como proposta de formação e de educação pela professora Corinta Geraldi, quando secretária de educação do município de Campinas.
Nesta perspectiva é preciso um aprofundamento intencional do conhecimento a respeito dos temas apontados por estas políticas educacionais.
Sou professor de matemática e durante toda a minha experiência, sempre ouvi dos alunos, principalmente quando compreendiam o que estava ensinando, por deveriam aprender aquilo que eu estava ensinando. Pergunta esta que me mobiliou na direção de encontrar respostas para esta indagação, não por que deveria responder aos alunos, mas por que era um pergunta que era extremamanete intrigante. E nessa busca é que acredito que vim me constituindo professor de matemática.
Afinal a que serve a minha resolução de problema. E como percebo os problemas que encontro ao longo da minha trajetória profissional?
Assim estas considerações que fiz a respeito das questões dos alunos, acredito que a sua mereça esta mesma consideração: Quem é normal nesta nossa sociedade? Que é detentor dos direitos a educação de qualidade? E Omo é possível te-las de forma efetiva e não apenas no campo dos discursos politicamente corretos.
Pois bem enquano sou professor de matemática a diversidade de sujeitos e de formas de aprendizagens vão se impondo a nossa prática. Durante muitos anos o Brasil e o seu sistema de educação optou por expelir aqueles que não se enquadravam nos padrões, rotulando e determinando os fracassados deste processo.
Não apontando solução para aqueles que fugissem dos padrões de normalidade que haviam. Neste sentido e quantitativamente foram afetados os negros e índios. Chegando a inclusive haver decretos que determinavam que estas populações não poderiam frequentar a escola em horário regular, reservando para estas populações o ensino noturno.
Mas em sendo o tempo o importante elemento da história, estamos hoje em 2012 e 12 vendo ser homologado o decreto sobre cotas e as diversas legislações referentes a inclusão.
No sentido da normalidade/anormalidade, tenho uma primeira experiência muito marcante que me fez muito cedo refletir sobre normalidade e anormalidade:

Caso André
Wilson Queiroz - 2008
Lembro-me bem quando iniciei minha carreira como professor de matemática da rede estadual, mas precisamente no ano de 1994, havia um aluno com hidrocefalia, muito bom aluno por sinal, gostava de matemática e sabia a tabuada de cor.
Ao encontrá-lo na classe uma quinta série e que diferentemente do André, era considerado todos normais, muitos deles não conseguiam ou ainda não haviam memorizado a tabuada, uma das aprendizagens que se espera que os alunos desenvolvam ao longo da vida escolar.
André possuía limitações na escrita o que dificultava a leitura dos seus textos, e assim precisei encontrar formas outras de avaliá-lo na disciplina.
Mas o que gostaria de ressaltar é que talvez seja esta a minha primeira experiência de trabalho consciente e comprometido com as diferenças é que ao encontrá-lo na classe me perguntei o que fazer com ele e quais os procedimentos e atitudes deveria ter?
Fui orientado pela coordenadora pedagógica, e não quero culpabilizá-la, mas sim demonstrar a minha limitação na interpretação do que ela havia me recomendado, pois a mesma disse-me que teria que trata-lo normalmente, então foi o que radicalmente fiz.
Mas, quem esta em classe sabe com é. Aluno de 5ª série pede para ir ao banheiro fazer xixi, e a regra era que não devíamos deixar ninguém sair da classe fora dos horários estabelecidos. Radicalmente e prontamente foi o que fiz.
Num certo dia o aluno referido me pediu para fazer xixi, e eu simplesmente disse não. Ele voltou para a carteira e sentou-se. Logo em seguida começamos a trabalhar a matéria na lousa, quando passado alguns minutos fui interrompido por alguns alunos da classe.
Qual foi minha surpresa ao virar-me e ver o André. Ele havia feito xixi na calça sentado na primeira cadeira. Foi então que veio o meu desespero. O que fazer agora? O aluno estava todo molhado e havia pedido pra sair e eu não deixei.
Pedi para os colegas chamar alguém da limpeza e fiquei matutando sobre o ocorrido.
Desta experiência aprendi que apesar de iguais, há necessidades específicas, algo que me marcou e que até hoje sinalizo como necessária e constituidora da minha ação pedagógica. Pois este aluno me possibilitou uma reflexão que jamais teria feito se não fossem suas limitações e possibilidades percebidas e possibilitadas por mim enquanto educador.
Naquele ano a partir desta experiência, passou a ser a luta travada no sentido de aprová-lo, por uma série de questões que foram sendo produzidas pelo aluno e pelo seu crescimento.
Mas naquele ano André reprovou.
Às vezes ainda o encontro e sei que depois desta experiência nunca mais tratei todos iguais o tempo todo.
Então deste estopim sei que tratar todos iguais o tempo todo produz uma anulação e uma impossibilidade de trabalho com o coletivo e com as especificidades, porém este episodio produziu mudanças outras em minha relação com os alunos, pra minha sorte este episódio foi bem no inicio da minha carreira.

Hidrocefalia é, de forma genérica, a acumulação de líquido cefalorraquidiano (LCR) no interior da cavidade craniana (nos ventrículos ou no espaço subaracnóideo), que por sua vez, faz aumentar a pressão intracraniana sobre o cérebro, podendo vir a causar lesões no tecido cerebral e aumento e inchaço do crânio.

Este caso me impôs a pensar nas especificidades e na generalidade com a qual estou comprometido na minha prática educativa.
Neste mesmo movimento e mais recentemente, trabalhando no Oziel encontrei o aluno Maicon e que assim escrevi sobre ele:

Sentindo na Pele
Wilson Queiroz - 27/04/2012

M... é um aluno que está no 9º ano E. Foi atropelado por um automóvel quando corria atrás de pipa, anos atrás, na rodovia Santos Dumont. Perdeu massa encefálica e por isso fala com dificuldade, mas com um pouco de esforço é possível entende-lo perfeitamente. Estiiiiiiiiiiiica alguuuuuuuuumas leeeeeeetras ao falar. Anda quase caindo e é forte como um touro. Forte que às vezes quando aperta a nossa mão parece que vai machucar.
Hoje eu planejei para a classe a resolução de Sistemas de Equações. Estávamos todos envolvidos com a resolução dos mesmos. Para M, recebi da professora de Educação Especial um livro de 1º ano, onde constam inúmeras atividades de alfabetização. Como ele tem certa autonomia de leitura entreguei o livro para ele e disse que queria que ele escolhesse a lição que gostaria de fazer. Deixei-o alguns bons minutos fazendo as atividades que escolheu.
8 – 3 = ________          8 – 5 = 3_________              9 – 4 = _________         9 – 5 _________
Toda a atividade devidamente ilustrada com desenhos de mãos que auxiliava no processo de encontrar os resultados das operações propostas.
Antes que eu esqueça, ele também tem muita dificuldade motora. Escreve alguns números e letras ao contrário. Porém compreende adição e subtração dentro de suas limitações e diagnóstico.
Tento tratá-lo o mais próximo do que trato todos os alunos “normais” e quando os “normais” estão tranquilos e envolvidos nas atividades, me disponho um tempo maior e exclusivo de dedicação ao aluno M.
Após deixá-lo um tempo fazendo as primeiras atividades, chamei-o para corrigir o verificar o que havia feito.  Eu estava sentado no fundo da classe e então vem o M...,  andando cai-mas-não-cai-cai-mas-não-cai-cai-mas-não-cai e quem está de longe e não o conhece sente esta mesma aflição. O fato é que ele não cai.
Corrigi as atividades. Havia uma conta que ele tinha errado, apaguei e pedi para que ele fizesse certo e com letra bonita, se fizesse com letra feia iria apagar para ele fazer de novo. (Falei sério, não bravo)
- Não quero letra feia. Avisei pra ele.
Ele olhou e riu. Disse que eu estava enchendo o “saaaaaaaaco”. E depois abriu um sorriso.
Foi então que resolvi escolher uma segunda atividade para ele, pensando na sua caligrafia.
Propus então que ele fizesse a atividade seguinte do livro:
0 – zero           1 – um             2 -_______        3______             4______
5_______             6 _____               7______            8_____              9______
Na classe tem o alfabeto exposto acima da lousa, porém eu não alcançava para mostrá-lo todas as letras, sem que fizesse confusão com as palavras que deveria escrever.
Logo em seguida olhei para o fundo da classe e percebi que havia os números escritos, num cartaz fixo na parede, do número 1 ao 20. Apontei para o painel  e pedi para que ele se virasse e tentasse escrever os números que estavam escrito.
Ele foi logo reclamando e dizendo:
- Eeeeeeeeeeu nããããão seeeeeeei faaaaaaaazer.
Falei em tom de bravo e de brincadeira com ele:
- Sabbbbbbbbbe Siiiiiiiiiiiiiim. Vaaaaaaaaaai Faaaaaaaazer e pronto.
Não era preguiça, nem rebeldia. Ele não conseguia mesmo fazer pela distância da escrita e pelas dificuldades visuais de encontrar as palavras. Então acatei a sua reclamação.
Aproximei-me dele outra vez e comecei a desenhar as letras do alfabeto em seu braço. Ele ia identificando as letras a partir dos desenhos que fazia com os meu dedo indicador em seu braço.
Fiz o desenho da letra A e ele falou o nome da letra e assim experimentei até o Z, para saber se ele conseguiria identificar e pronunciar os nomes das letras.
E assim encontrei uma maneira de escrever com ele os números de Zero a Nove por extenso.
Depois que terminamos ainda deu tempo de encher mais um pouco a sua paciência. Repeti diversas vezes as palavras escritas. E quando percebia que ele não conseguia pronunciar corretamente a sílaba que compunha a palavra colocava a mão em suas costas e repetia com ele varias vezes.
O três foi uma das palavras que fiz isso. Ficamos brincando de pronunciar a palavra três diversas vezes.
Acredito que devo responder a duas perguntas que podem e devem surgir:
Quanto tempo durou tudo isso?
R- Não mais que dez minutos
E os demais alunos da classe?
R- Estes são realmente surpreendentes. Tem dias que concorrem diretamente com o M..., mas hoje eles simplesmente colaboraram e perceberam um pouquinho mais do quanto importante pode ser um aluno com necessidade especial em classe. Principalmente quando se tem o devido suporte e as condições necessárias para que possamos dar atenção a todos e a cada um em suas especificidades.

E agora tentando ser objetivo na minha resposta/consideração é sobre este prisma que também trabalho e a sua pergunta se coloca como resposta: Afinal sabendo que Então, posto que temos aqui um jogo perverso de apagamento e exacerbação, como você, sendo educador, trabalha tais diferenças em suas práticas?"
Reconhecendo a perversidade do sistemas e tentando encontrar do exacerbamento das ações algumas possíveis potencialidades, como por exemplo dar maior visibilidade as discussões na escola e com os alunos. Perceber o quanto das diferenças tem sem transformado e utilizado como desigualdade e naturalizadas na minha prática. E fugindo a todo custo da invisibilização das discussões que fazem parte deste universo deformação e discussão.
Tenho aprendido que as discussões étnico-raciais abriram meus poros para todos os temas de exclusão-inclusão e que a partir desta experiência, tenho buscado pratica uma educação em 3D: Desnaturalizada, Descolonizada e Desescravizada. Assim ao Desnaturalizar a exclusão, a normalidade, o racismo, as desigualdades é possível buscar maneiras de equacionar estes problemas e práticas.
Neste sentido a ruptura do silêncio da escola e da família é uma mola propulsora para buscar o que o Sociólogo Boaventura de Souza Santos nos diz: é preciso lutar pela igualdade quando as diferenças nos discrimina e lutar pelas diferenças quando a igualdade nos anula.

Wilson Queiroz
Mestre em Educação
Especialista em Pedagogia Étnico-Racial
GEPEC – Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada – UNICAMP.

Pergunta: Professora do 4o ano EF

Professora do quarto ano do ensino fundamental de uma EMEF em Campinas situada entre dois bairros de culturas e poder econômico muito distintos. Na sala de aula ela tem um aluno com paralisia cerebral por falta de oxigenação no momento do parto. A escola tem suporte profissional, material e acessibilidade para a inclusão dos chamados portadores de necessidades especiais, e também dispõe de muitas oficinas subsidiadas pelo Programa Mais Educação. Algumas atendem esse público.

"Pensando pelo viés da normalidade e da patologia, um aluno "normal" é aquele que está contido nos parâmetros "satisfatórios" avaliado por um sistema único. Senda assim, poucos são os que conseguem seguir tais exigências deixando aos demais uma classificação patológica e quase sempre medicalizada. Com isso é fácil identificar que, os que estão além e os que estão aquém do sistema já estão excluídos pelo "apagamento" das diferenças. Por outro lado há o discurso da inclusão daqueles que foram rotulados "portadores de necessidades especiais", os quais, exacerbadamente tomam para sí os holofotes políticos. Então, posto que temos aqui um jogo perverso de apagamento e exacerbação, como você, sendo educador, trabalha tais diferenças em suas práticas?"

"Pessoalmente é muito difícil o trabalho com a inclusão em sala de aula, pois 
ainda o poder público está aquém das políticas públicas de inclusão social para crianças e adolescentes. Na prática trabalho com a pluralidade e questões relacionadas a cidadania. Mas na grande maioria de situações estamos, nós professores," sozinhos". As vezes até oferecem um curso ali mas no horário que impossibilita minha formação."

Pergunta: Professora Eliana Ayoub


Como são encaradas e trabalhadas as diferenças segundo a perspectiva do LABORARTE? Existem pesquisas e práticas relacionadas ao tema no grupo de pesquisa?

O LABORARTE, Laboratório de Estudos sobre Arte, Corpo e Educação,desenvolve estudos sobre arte, corpo e educação, em suas diferentes linguagens, tempos e espaços, tratando de temas que abrangem educação estética, educação física e políticas culturais.

É composto por 4 docentes da FE (Ana Angélica Albano, Eliana Ayoub, Márcia Strazzacappa e Rogério Moura), além de docentes convidados de outras universidades, orientandos da pós-graduação e da graduação.

As pesquisas desenvolvidas pelos seus docentes e orientandos abrangem diversas  temáticas, sendo que o tema das diferenças perpassa os estudos do grupo em vários sentidos, uma vez que pensamos as relações entre arte, corpo e educação como algo que se constrói na relação entre sujeitos singulares, que devem ser considerados em suas diferenças, em contextos e lugares diversificados. Há pesquisas sobre educação formal, educação não-formal e educação informal, sobre pedagogia social, sobre crianças e jovens em situação de vulnerabilidade e risco social, entre outros.

De modo mais específico, podemos citar algumas pesquisas já realizadas ou em andamento com públicos específicos como: mestrado concluído sobre "o ensino de dança de salão para pessoas com deficiências múltiplas (mental e física)", mestrado concluído sobre moradores de rua e doutorado em andamento sobre "processos criativos em dança com pessoas com deficiência mental severa (autismo)".

Tirinhas




terça-feira, 16 de outubro de 2012

Para começar...

“O menininho” - Helen Buckley

"Era uma vez um menininho bastante pequeno que contrastava
com a escola bastante grande.
Quando o menininho descobriu que podia ir à sala
caminhando pela porta da rua, ficou feliz. A escola não parecia tão
grande quanto antes.
Uma manhã a professora disse:
- Hoje nós iremos fazer um desenho.
“Que bom!”, pensou o menininho. Ele gostava de desenhar.
Leões, tigres, galinhas, vacas, trens e barcos... pegou sua caixa de
lápis de cor e começou a desenhar.
- Esperem, ainda não é hora de começar!
Ela esperou até que todos estivessem prontos.
- Agora, nós iremos desenhar flores.
E o menininho começou a desenhar bonitas flores com seus
lápis rosa, laranja e azul.
- Esperem, vou mostrar como fazer.
E a flor era vermelha com o caule verde.
- Assim, disse a professora, agora vocês podem começar.
O menininho olhou para a flor da professora, então olhou para
a sua flor. Gostou mais da sua flor, mas não podia dizer isto... virou
o papel e desenhou uma flor igual a da professora. Era vermelha
com o caule verde.
No outro dia, quando o menininho estava ao ar livre, a
professora disse:
- Hoje nós iremos fazer alguma coisa com o barro.
“Que bom!” pensou o menininho. Ele gostava de trabalhar
com o barro. Podia fazer com ele todos os tipos de coisas: elefantes,
camundongos, carros e caminhões. Começou a juntar e amassar sua
bola de barro.
- Esperem, não é hora de começar!
Ela esperou até que todos estivessem prontos.
- Agora nós iremos fazer um prato.
“Que bom!”, pensou o menininho. Ele gostava de fazer pratos
de todas as formas e tamanhos.
- Esperem, vou mostrar como se faz. Assim... Agora vocês
podem começar.
E o prato era fundo. Um lindo e perfeito prato fundo.
O menininho olhou para o prato da professora, olhou para o
próprio prato e gostava mais do seu, mas ele não podia dizer isso...
amassou seu barro numa grande bola novamente e fez um prato
fundo, igual ao da professora.
E muito cedo o menininho aprendeu a esperar e a olhar e a
fazer as coisas exatamente como a professora. E muito cedo ele não
fazia mais as coisas por si próprio.
Então, aconteceu que o menininho teve que mudar de escola...
Esta escola era ainda maior que a primeira.
Ele tinha que subir grandes escadas até a sua sala...
Um dia a professora disse:
- Hoje nós vamos fazer um desenho.
“Que bom!”, pensou o menininho. E esperou que a professora
dissesse o que fazer. Ela não disse. Apenas andava pela sala.
Quando veio até o menininho falou:
- Você não quer desenhar?
- Sim. O que é que nós vamos fazer?
- Eu não sei, até que você o faça.
-Como eu posso fazer?
- Da maneira que você gostar.
- E de que cor?
- Se todo mundo fizer o mesmo
desenho e usar as mesmas cores, como eu
posso saber qual o desenho de cada um?
- Eu não sei!
E começou a desenhar uma flor vermelha com um caule
verde..."

Quem somos?

Este blog foi criado para apresentação do tema "Apagamento/Fortalecimento das Diferenças" para a disciplina EP 567 "Seminário de Integração Curricular II" ministrada pela Profª Drª Heloisa Lins, no curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.

Formação do Grupo:
Ana Luiza Prata
Angela Lima
Camila Terezan
Elizabel Vasques
Fernanda Guassi
Giovanna Rocha
Hugo Miura
Ingred Rosário
Lucimara Moriconi
Poliana Murer